O golpe da falsa central do banco começa de um jeito simples: o telefone toca, e no visor aparece exatamente o número oficial do seu banco — o mesmo que está impresso no verso do seu cartão. Do outro lado da linha, uma pessoa educada e segura se apresenta como funcionário da central de atendimento e avisa que identificou uma “compra suspeita” ou uma “tentativa de golpe” na sua conta. É nesse momento, sob pressão e com a falsa sensação de segurança de estar falando com o banco de verdade, que milhares de brasileiros acabam fazendo transferências “de proteção” ou informando senhas e códigos que nunca deveriam compartilhar com ninguém.
Segundo a Febraban (Federação Brasileira de Bancos), o chamado “golpe da falsa central” segue crescendo no país em diferentes versões, todas usando tecnologia de spoofing para mascarar o número que aparece na tela do celular e simular contato oficial de um banco. Já o relatório “O Estado dos Golpes no Brasil 2026”, da GASA (Global Anti-Scam Alliance), levantado entre março de 2025 e fevereiro de 2026, mostra que telefone e aplicativos de mensagens respondem por 71% dos golpes reportados no país, dentro de um cenário em que 81% dos adultos brasileiros afirmam ter sido expostos a algum tipo de golpe em 2026 — um retrato de como o contato telefônico continua sendo uma das principais portas de entrada para fraudes financeiras.
Como funciona o golpe da falsa central do banco
O golpe começa com uma ligação (às vezes precedida por SMS, e-mail ou mensagem de WhatsApp) na qual o criminoso se apresenta como atendente, gerente ou analista de segurança do banco. Usando spoofing — uma técnica que falsifica o número exibido na tela —, a ligação aparece com o mesmo telefone oficial da instituição, o que reduz drasticamente a desconfiança da vítima.
A partir daí, o golpista cria um cenário de urgência: alega que identificou uma compra suspeita no cartão, uma tentativa de fraude na conta, um empréstimo sendo contratado em nome da vítima ou até um novo aparelho tentando acessar o Internet Banking. Para dar ainda mais credibilidade, alguns grupos simulam transferências internas entre “departamentos”, com música de espera e vozes diferentes, ou chegam a mencionar boletins de ocorrência falsos. O objetivo final é sempre o mesmo: convencer a vítima a fazer um Pix ou TED “de segurança” para uma conta supostamente protegida, ou a informar senha, número do cartão, código de segurança e tokens de confirmação — dados que permitem ao criminoso esvaziar a conta em minutos.

Sinais de alerta / Como identificar
- A ligação pede que você informe senha, código de cartão, token ou código recebido por SMS — nenhum banco faz esse tipo de solicitação por telefone.
- Existe pressão para agir imediatamente, sob a justificativa de que a conta será bloqueada ou o prejuízo aumentará se você não agir agora.
- Pedem para você fazer uma transferência ou Pix para uma “conta segura” ou “conta reserva” supostamente do próprio banco.
- O atendente sabe seu nome completo e alguns dados, mas insiste em confirmar informações sensíveis que o banco já deveria ter.
- Sugerem instalar um aplicativo de acesso remoto ou um app desconhecido para “resolver o problema” ou “reverter a fraude”.
- O número exibido no visor é idêntico ao número oficial do banco, mesmo que a ligação pareça estranha ou a voz não soe como um atendimento padrão.
- Há simulação de transferências entre setores, música de espera ou menção a boletins de ocorrência para dar mais credibilidade à ligação.
Como se proteger
- Desligue a ligação e não continue a conversa, mesmo que o número exibido pareça ser o do seu banco — spoofing falsifica esse número com facilidade.
- Aplique a regra dos cinco minutos: espere alguns minutos e ligue você mesmo para o banco usando o número oficial impresso no cartão ou o app.
- Nunca informe senha, código de segurança, número completo do cartão ou token de confirmação por telefone, seja qual for a justificativa.
- Lembre-se de que nenhum banco pede transferência ou Pix para “proteger” sua conta — toda solicitação nesse sentido é golpe.
- Ative recursos de segurança oferecidos pelo seu banco, como confirmação de chamadas dentro do próprio aplicativo, quando disponíveis.
- Não instale aplicativos de acesso remoto ou qualquer programa indicado por quem ligou se identificando como funcionário do banco.
- Desconfie de mensagens de SMS, e-mail ou WhatsApp que antecedem a ligação e contenham links — não clique neles.
O que fazer se você já caiu no golpe
- Entre em contato imediatamente com o banco pelos canais oficiais (app, site ou número do cartão) para bloquear cartões, conta e solicitar contestação das transações.
- Troque as senhas do Internet Banking, do aplicativo do banco e de qualquer serviço que use a mesma senha comprometida.
- Registre um Boletim de Ocorrência detalhando a ligação, o número usado pelo golpista e as transações realizadas, o que ajuda tanto na investigação policial quanto em eventual disputa com o banco.
- Guarde prints, comprovantes de transferência e o histórico de chamadas como provas, pois a Justiça já reconheceu, em decisões como a do TJDFT, que bancos podem ser responsabilizados por falhas de segurança nesse tipo de fraude.
- Monitore extratos e o CPF em serviços de proteção ao crédito nos dias seguintes, já que golpistas costumam tentar abrir empréstimos ou cartões adicionais com os dados obtidos.
- Consulte as orientações do Banco Central do Brasil sobre segurança bancária e canais oficiais de denúncia.
Perguntas frequentes
O banco realmente pode ligar de um número igual ao oficial sem ser golpe?
Sim, tecnicamente é possível, pois a técnica de spoofing falsifica o número exibido na tela do celular. Por isso o número correto no visor não é garantia nenhuma de que a ligação é legítima — o critério que importa é o que pedem durante a chamada — esse é justamente o mecanismo por trás do golpe da falsa central do banco.
O banco pode mesmo pedir um Pix “de segurança” para proteger minha conta?
Não. Nenhum banco jamais solicita transferência, Pix ou pagamento para “proteger”, “estornar” ou “reverter” uma fraude. Qualquer pedido nesse sentido é, por definição, golpe.
Se eu cair no golpe, tenho alguma chance de recuperar o dinheiro?
Existe possibilidade, especialmente quando o banco falha em oferecer segurança adequada contra esse tipo de fraude reconhecida e recorrente — a Justiça já determinou em alguns casos, como no TJDFT, que instituições financeiras indenizem vítimas. Ainda assim, o caminho mais eficaz é a prevenção: agir rápido após o golpe (bloqueio, boletim de ocorrência, contestação formal) aumenta as chances de solução, mas recuperação total não é garantida.
Este artigo foi produzido com base em alertas da Febraban, orientações de segurança do Bradesco e do Nubank, reportagens sobre a parceria entre Itaú e Google contra o golpe da falsa central de atendimento, decisão do TJDFT sobre responsabilidade bancária em casos de fraude, e dados do relatório “O Estado dos Golpes no Brasil 2026”, da GASA (Global Anti-Scam Alliance).
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